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tem dia que é foda

café da manhã, pão, café, flores, mesa

Fred respirava em meu pescoço, meio roncando, meio dizendo "fica". A manhã pedia nada heroico: fricção lenta sob o lençol, aquela coreografia sonâmbula de um casal de homens com vontade de xixi disfarçada de tesão. Brinquei nele com a boca, gesto curto e ritmado. Rimos do próprio controle e deixamos o resto para depois; o dia não é filme: tinha uma Golden de mais de trinta quilos e caixas de gatos para limpar. Os cinco, inclusive, já estavam por cima, estranhando o movimento na coberta.

Na cozinha, os copos que surgiram na madrugada me aguardavam. O café passava, e Fred media seus pés descalços se encaixando atrás de mim, vinte dedos enfiados no rodapé da pia. Vai se atrasar, falei. Margot latiu mais animada do que nós, querendo aliviar a bexiga — essa, sim, com vontade de apenas xixi.

Ele saiu para a aula de legislação de trânsito, de mochila e missão. Não comeu nada. Hoje é placas, avisou, sério. Dei um beijo, o desejo com cabeça nos afazeres. Podia ter uma placa indicando o caminho para evitar a preguiça. Sábado é daqueles dias que não passam e, quando a gente assusta, já acabou e queremos mais. E com apenas o short molenga do pijama apontando para uma curva suave à esquerda, ô, como eu queria mais!

Os gatos me encararam com o desprezo de fiscais da vigilância sanitária; miaram pareceres. Varri, peneirei, catei grandes pedaços ressequidos de merda que nunca soube como saíam deles. Dei descarga no mundo, terminei de passar o café e acendi um cigarro.

Margot rodou três vezes antes de sentar e pedir o passeio, a clássica Golden com senso de drama. Troquei de roupa, peguei a guia, as chaves, esqueci a máscara imaginária de pessoa perfeita: no espelho do elevador, os cabelos revoltosos e a roupa amassada. No pátio, brincamos até a língua dela escapar vinte centímetros. Esse era o contrato: ela precisava emagrecer, não morrer de ataque cardíaco.

Olhei para cima: uma vizinha regava plantas, outro fumava na varanda e discutia com alguém, um terceiro lutava com um varal despencado. Margot pescou uma folha no ar e desfilou orgulhosa, ligando alerta nas orelhas com o protesto de um bebê em algum andar. No celular, 9h30. Minha aula começaria em breve, mas ainda podia esticar a língua de Margot uns dois centímetros — vinte e dois centímetros é o ideal, nem mais, nem menos.

Joguei a bolinha e pensei em nada útil e em tudo: para onde foi a pessoa que eu era com vinte anos, por que gatos acreditam que areia limpa é ofensa, e que quase todo mundo passa na prova de legislação só com palpites. Margot encostou o focinho no meu joelho, assinando a ata do presente, me trazendo à realidade de mais um arremesso. Nariz gelado da porra.

Perto das 10h, subimos. Margot bebeu água em modo tempestade e pediu refil. Nós nos acostumamos a fornecer somente água da geladeira, mas a garrafa não estava cheia, então ela teve de se contentar com a mistura de gelada e ambiente. Tem dia que tudo vem pela metade, falei para ela e suspirei. Ela dormiu em formato de vírgula.

Aproveitei a calmaria e os últimos segundos para retocar ordem na casa: um travesseiro alinhado, os copos no escorredor, um cigarro com o café quentinho e o computador acordado no escritório. Era o último encontro com o professor de escrita criativa e, como costume, enchi um copo com Coca, metade gelo, e duas doses de Jack Daniel’s Tennessee Honey. Um foguinho sempre ajuda a limpar a mente, a flanar por ideias absurdas que, sóbrio, eu jamais escreveria. Abri o caderno: tarefas, ideias, rabiscos que pretendiam ser um desenho. Da janela, vento com cheiro de tarde, mesmo sendo manhã. O tempo anda bêbado nos sábados e tropeça nas horas.

Cliquei no link que o professor enviou; o homem sempre foi preciso, um trem que não atrasa. A câmera, por sorte ou Tennessee Honey demais, estava benevolente comigo. O cenário ao fundo fingia erudição sem ser piegas: minha máquina Olivetti em um canto, alguns livros, um vaso chique com arranjo seco e dois quadros enormes — cópias descaradas de Magritte.

Ajeitei o cabelo que não é um cabelo. Uma juba.

A aula abriu. A voz dos colegas e do professor preencheram a sala. Ali cabia o resto do desejo da manhã, o cheiro de merda de gato, o latido de Margot, as placas de trânsito desfilando na cabeça do Fred em outra sala do mundo, o gelo derretendo no fundo do copo, água rala e sem gosto.

Dei bom dia.

O dia me respondeu de volta, um tanto irônico e doce, totalmente animado.

Quando Fred chegou, meio-dia, concluímos o café que não tomamos.

Com leite.

 
 
 

4 comentários


Aloisio Romanelli
08 de set. de 2025

Puta conto!

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Marcelo Nery
08 de set. de 2025
Respondendo a

Obrigado, Alu!

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Frederico Freitas
Frederico Freitas
06 de set. de 2025

Participei ativamente deste conto! 😂

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Marcelo Nery
Marcelo Nery
06 de set. de 2025
Respondendo a

Haha "ativamente" foi a melhor palavra 😅

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