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mochilão em europa


Cuecas samba-canção ou boxers? Colocou as duas. Tirou. Recolocou. Repetiu o dilema com o desodorante: aerossol ou roll-on? Levou os dois. Achou um em pó e levou também. As camisas pretas idênticas não deram trabalho, mas ainda assim reorganizou, jogando Tetris com a mala. “Se controle, cara.” O HD foi enfiado em saco hermético: todas as temporadas de Arquivo X, menos os filmes. E um baralho. Organizar a bagagem era mais difícil do que aguentar a força 6G da câmara de testes ou aturar anos com cientistas que falavam em fórmulas e fungos.

O celular vibrou. Atendeu no viva-voz.

— Que foi agora, Dona Hercília?

— Carlos, leva um casaquinho.

— Mãe, já disse que não é a Europa do continente.

— Que fosse o Alasca. É longe. Vai fazer frio.

— Um casaquinho não ajuda, mãe. É uma lua congelada...

— Num disse? Vai fazer frio.

Ele suspirou.

— Beijos, mãe.

Desligou.

Puxou do fundo da gaveta o casaco tricotado que ganhou ao entrar no ITA. Tinha trama de carinho antigo. Jogou por precaução: mãe não se afronta, nem em outra lua ou planeta. Colocou biscoito (em Minas é biscoito), escova de dentes, um pente. O livro de filosofia de Vítor ficou. Filosofia? Apenas se tudo desse errado. Ou certo demais.

A tela se iluminou com a notificação.

Vítor.

“Nem um almoço, um abraço, sei lá... E sua mãe?”

“Não deu certo antes. Não vai dar certo em outro planeta.”

“É lua.”

“Vá se foder.”

Jogou o celular na cama. A campainha tocou. Entregador. No pacote, uma lata de doce de leite e um bilhete: “Ainda te amo. Vítor.” Esperou a lata chegar para mandar a mensagem. O desgraçado sabia cronometrar.

Catando meias na gaveta, achou uma foto: ele e Vítor na Pampulha, bicicletas largadas, suados, camisas na cintura. Podiam pedalar 628 milhões de quilômetros que não chegariam aonde prometeram. Seis anos. Para um casal gay, era praticamente tempo de bodas — e a deles tinha qualidade de latão. Maior culpa era de Carlos, claro, sempre se protegendo da frustração de relações passadas. Dobrou a foto e enfiou entre as cuecas. Não deu tempo de pensar no que isso significava: o celular vibrou. Era notificação da chefe da missão, Tereza, uma mulher chilena que falava sete idiomas e não sorria em nenhum.

“Tudo pronto?”

“Terminando aqui.”

“Vão te buscar à tarde. E já escolhi a música para a subida: Rocketman.”

“Se não tem Raul, não é viagem espacial.”

Cinco minutos sem resposta.

Desistiu do Tetris. Enfiou tudo e fechou o zíper no recorde. Era bom com recordes: dez minutos consciente no vácuo, nenhum acidente com painéis solares e dois anos sem resfriado. Ou diarreia. Na etiqueta, o crachá com a pior 3x4 já tirada e o nome da missão: “Operação Abismo”.

No avião, lembrou dos Rauls. Quando pousasse, baixaria tudo. Até uma Rita. “Rocketman...”, bufou.

Assim que pousou, uma van blindada o levou ao Centro de Lançamento. No corredor, cruzou com o técnico russo: Yuri Dimitri. Pele de gelo, antebraços de titã, pelos escapando da gola. O urso russo.

O destino, às vezes, é preguiçoso.

Muito preguiçoso: iriam dividir o quarto até o lançamento, uma semana com um teste que não avisaram que faria parte do protocolo. Como o urso caberia naquela cama? Carlos riu. Abriu a mala, puxou só o casaquinho de tricô e despachou. O objeto cheirava ofensivo, lembrança da mãe empurrando nele o molde do pai ausente. Dúvidas. Medos. A sexualidade atravessada pelas piadinhas, as namoradinhas que nunca existiram e eram cobradas.

Levar artigos pessoais era recomendação psicológica: ancoragem afetiva para uma viagem tão longa. Cinco anos de ida, um ano em Europa, e cinco de volta. Total de onze anos e o maior teste de todos: suportar os roncos de um urso russo.

No dia do lançamento, levou o casaco colorido, desbotado, uma bandeira arco-íris sem querer ser. As malas foram esterilizadas.

— Malas... agora, são só carga — Yuri filosofou.

Carlos não respondeu.

A missão era a mais importante da história: os sinais em Europa seriam de vida? Seria possível ter vida tão longe? Quando se assustou, fila. Yuri, não foi. Virose misteriosa. Tiraram sua mala às pressas e o lançamento seguiu: era dinheiro demais em jogo. E Yuri era técnico. Substituível. Os tripulantes se posicionaram no palco e acenaram para a humanidade. Dezenas de emissoras de TV e jornais. Carlos segurava o casaco dependurado no braço.

— Qual o motivo desse ser o seu objeto de afeto? — Perguntaram.

— Tem coisa que a gente carrega mesmo quando pesa. E tem coisa que esquenta mesmo quando já esfriou — Carlos respondeu, e piscou para a câmera.

Teve replay em todos os jornais.

A mãe chorou.

Vítor esmurrou a TV. Em todas as edições. Correu para a casa de Carlos, determinado a salvar o que restava de si naquela relação.

Porta lacrada. Pressurização.

O tempo parou.

— Carlos, o painel.

Tereza, a chefe da missão, apontou para o sinal piscante que solicitava uma ação. Carlos empurrou o pino e concluiu: “Checado”.

— Carlos, o cinto...

Cinco pontos: cintura, ombros, pernas. Puxou a trava. Ignição.

A mãe envelhecia, enquanto Vítor diminuía a cada camada atmosférica vencida.

Assim que entraram em órbita, Tereza repassou o cronograma: 438 reuniões até Europa. Carlos torcia que a criogenia já tivesse sido inventada. Era tempo suficiente para se apaixonar por uma assistente de bordo robótica, como alertava o PDF de 4.538 páginas, cheio de siglas e otimismo. Nem visto europeu pedia tanto.

A Terra ficou minúscula. Poderia ter feito um almoço de despedida. Ou uma última foda com Vítor. Ele era ótimo nisso. Suspirou. Tereza pigarreou. Pelo cronograma, chegariam a Marte no sexto mês. Daria para ver os engarrafamentos em BH? Onde estaria Vítor em 6 meses?

A tripulação sabia o nome de todas as luas de Saturno, de Júpiter, até dos meteoros, mas ninguém jogava truco. Os Arquivo X! Que tal arrumar a bagunça da mala?

Mala cinza? A dele era azul. Abriu. Barras de cereal. Sem passas ou castanhas, e adoçadas com xilitol. Livros de astrofísica. Cuecas enormes de elásticos frouxos.

Matrioscas.

“Puta que pariu!”, chutou a parede, foi arremessado para trás e bateu a cabeça no teto.

As matrioscas, soltas, flutuaram como planetas errantes.

O destino, às vezes, é irônico.

Carlos flutuou até o painel de comunicação e mandou uma mensagem: “Trocaram minha mala. Tô preso aqui com um cardápio pra Laika”. Recebeu uma resposta automática: “Aguarde instruções”. Não aguardou. Gravou um vídeo. “Alguém me manda um feijão em órbita!” O comando terrestre achou divertido. Virou o porta-voz humano entre os cientistas sisudos. Viralizou.

Na vigésima segunda semana, ele começou a falar em segredo com o robô de bordo. Chamou-o de Caetano. Cantava para ele. Reclamava da falta de café decente. E de feijão.

— Se eu esquecer, vira cura ou perda? — escapou de Carlos.

— Esquecimento não consta nos meus logs. Só níveis de radiação.

— E o que faço com isso? Me esquento?

— Temperatura da cabine: 21º Celsius. Estável.

Carlos, rei dos recordes inúteis, pensou num livro: “O que se leva para morrer em Europa”. Capítulo um: “Matrioscas”. Não escreveu qualquer linha.

Finalmente, Europa.

Para nenhuma surpresa, ele foi o escolhido a ser o primeiro a marcar o solo. Era o único que tinha um casaco apropriado. O que falaria? “Um grande passo para a humanidade”? Ou “Não trouxe meias de tricô”? Não disse nada. Só a respiração. E o frio de sempre.

Estabeleceu uma rotina: acordava, limpava os sensores, gravava vídeos com frases do tipo “Já senti frieza pior”. Acabaram encontrando água líquida. Caetano analisou. Sucesso! Vida microscópica, uma bactéria com cinco flagelos. Carlos, com seus dois flagelos na Terra, descobriu que estar longe não foi o suficiente para se esquecer.

Meses se passaram. Recebeu um presente: uma cápsula com três pacotes de feijão, um pen drive com toda a obra de Raul e Rita e um bilhete: “Volta logo. Vítor”.

Cozinhou o feijão. Comeu ouvindo Pluct, Plact, Zum.

Depois gravou outro vídeo: “Gente, o feijão chegou. Agora, manda doce de leite”. Horas depois, notificações na tela. Entre curtidas e comentários, uma mensagem privada: “Doce de leite garantido. E um abraço de urso. Te espero. Sempre”.

Carlos não entendeu. “O que eu fiz para merecer isso?”

Vítor desfez o Tetris e encontrou a foto deles entre cuecas de elástico bom.

O destino, às vezes, é necessário.

O casaco de tricô no pino, dependurado.

Onze anos durariam o suficiente para ele perder o cheiro.

 
 
 

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